terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Vampiros: o que raio é que lhes aconteceu?

O ano de 1973 era a nova obsessão dos calendários ocidentais, quando Anne Rice compôs o primeiro volume daquilo que estava em vias de se tornar uma sucessão de best-sellers destinados a ser lidos em todos os cantos da Terra. Refiro-me às suas inconfundíveis Vampire Chronicles (eu ainda contemplei a possibilidade de traduzir isto para Português mas ficava demasiado foleiro). O manuscrito primordial da saga, que só seria publicado três anos depois, dava pelo nome de Interview with the Vampire e viria a ser adaptado para o grande ecrã sob a forma de um modelo de excelência para os próximos filmes do seu subgénero. Com a criação e publicação deste romance, Rice alcançou um feito inédito e simultaneamente extraordinário nos domínios da literatura fictícia: vestir uma infame estirpe de criaturas de teor malévolo, dotadas da particularidade de sair das suas sepulturas à noite para se alimentar do sangue dos vivos, na pele de seres imortais excessivamente emocionais e sensíveis, capazes de contagiar qualquer homem ou mulher com a sua sensualidade, que de acordo com as palavras da eloquente escritora, cerceava o limiar do diabólico. Brilhante.

Mas antes de Rice imortalizar o seu génio nas páginas das suas obras, nunca ninguém se tinha lembrado de conferir características desta natureza em vampiros. E afinal de contas, porque é que alguém faria tal coisa? Desde tempos imemoriais que o vampirismo estava associado a predadores nocturnos implacáveis que não olhavam a meios para cravar as suas presas nos nossos pescoços. Se a única razão para eles se erguerem do túmulo era ceifar-nos a vida, valeria mesmo a pena ralarem-se com algo tão banal como lidar com uma vida amorosa?

Independentemente disso, as Vampire Chronicles proporcionavam aos seus ávidos leitores uma abordagem moderna (e recheada de sexualidade) ao mito folclórico. Fazia parte do seu charme. Até aqui estava tudo bem.

Mais especificamente, até 2005, quando a editora Little, Brown and Company decidiu publicar uma série de romances da autoria de Stephenie Meyer, actualmente descrita como um fenómeno da cultura pop: a 'quadrilogia' do Crepúsculo. Valha-me Deus.

De facto, são raras as ocasiões em que nos podemos servir de um adjectivo como 'impensável' para realçar categoricamente as proporções absurdas de um "fenómeno da cultura pop" desta ordem.

E como se não bastasse ser um plágio flagrante de todas as ideias basilares que moldaram a identidade das Vampire Chronicles, Meyer galardoou os seus vampiros com um repertório de características oriundas da sua criatividade rara. Nomeadamente a peculiaridade destes resplandecerem quando estão expostos à luz solar.

Sim. Nos livros dela, os vampiros, brilham. No Sol.

Na merda do Sol!

Aquela desgraçada até teve a audácia de justificar essa barbaridade com uma explicação perfeitamente racional!

No entanto, o que realmente consegue deixar-me fora do sério quando alguém menciona o Crepúsculo na minha presença, não é o facto de os romances de Meyer serem incapazes de inspirar algo em mim que transcenda o impulso incontrolável de os ridicularizar. Não é o facto de se tratarem de livros dolorosamente orientados para adolescentes. Não é o facto de a personagem principal da saga partilhar uma miscelânea de semelhanças sinistras com a autora. É ter a noção da quantidade impensável de pessoas que veneram cada palavra escrita nos livros dela ao expoente da loucura! É impensável que esta mulher esteja a banhar-se em rios de dinheiro pelos méritos de uma narrativa que gira a volta de vampiros que brilham no Sol! É impensável não me ter ocorrido a ideia de plagiar Anne Rice primeiro!

Igualmente impensável (e indecente) é não terem incluído Wesley Snipes no elenco de actores enquanto rodavam as filmagens para a primeira adaptação cinematográfica dos romances.



Certamente que ao desempenhar um dos papeis mais reconhecíveis da sua carreira, os cento e vinte e dois minutos do filme teriam sido muito mais suportáveis. Ouso mesmo dizer que até poderia ter valido a pena o esforço de levantar o cu do sofá para o ir ver ao cinema.

6 comentários:

Liliana/Blewmethod disse...

Discordo contigo. A Stephenie Meyer é muito boa escritora e tanto ela como a J.k.Rowling estão banhadas em dinheiro. E não têm nada a ver uma coisa com a outra. Cada uma da sua maneira. Talvez dos livros mais lidos em todo o mundo. Acho que também se torna obsessivo ridicularizar o crepúsculo só porque é conhecido e ela ter tido ideias diferentes do que tu achas que um vampiro deve ser. Quem dera muita gente ser como estas duas escritoras. Eu ia gostar da Stephenie mesmo que não fosse sobre vampiros. Eu sei ler e compreender. E sei ver quando as pessoas têm um bichinho de Arte dentro delas. Coisa que as pessoas não vêm quando pensam nos demais diversos dos seus pensamentos de ridicularizar logo as suas ideias e criticar. Mas pronto é isso mesmo uma critica, que entanto parece-me bem pessoal.

Eu sou amante da leitura. Gosto de ler de tudo.

Jacques le Fabuleux Mangeur de Crêpes disse...

Eu nunca disse que a Stephenie Meyer é má escritora. Eu disse que ela escreve má ficção. E como se isso não bastasse, os livros dela são completamente privados de originalidade (ao contrário dos da J.K. Rowling) e cheios de personagens unidimensionais. Para não mencionar o quão absurdo é os vampiros poderem procriar nos romances dela! Se eles não têm um batimento cardíaco, como é que conseguem ter uma erecção? Food for thought!

Eu não crítico ou ridicularizo algo só por ser conhecido e "ter ideias diferentes do que eu acho" que alguma coisa deve ser, eu crítico e ridicularizo aquilo que considero perfeitamente absurdo!

Qualquer crítica, independentemente da sua natureza, baseia-se numa opinião pessoal. Esta é a minha.

Liliana/Blewmethod disse...

'Se eles não têm um batimento cardíaco, como é que conseguem ter uma erecção?'
Da mesma maneira que os pedófilos e violadores o conseguem.

Anónimo disse...

Creio que a ideia era:

Vampiro -> morto -> 0% oxigénio -> 0% batimento cardíaco -> 0% fluxo sanguíneo -> no hard-on. :(

é algo do género.

e porra, eles brilham ao sol... ... ... porra.

Ao sol...

...

Porra.

Anónimo disse...

E a Stephenie Meyer é má escritora.

Marcul disse...
Este comentário foi removido pelo autor.

Enviar um comentário