Aviso: O que se segue é um texto grande como o caraças. Talvez até maior, tendo em consideração que eu nunca medi o caraças. Caso padeçam de um sério défice de tolerância para grandes sucessões de frases e palavras, aconselho-vos a saírem imediatamente deste blogue. Ao contrário do que muita gente pensa, isto de ler não é para quem pode. É para quem quer.
Pouca Vergonha e Más Intenções - Um conto indecente baseado em factos surreais.
Parte I
Se foi o excesso de álcool no sangue daqueles imbecis que convidou a desgraça ou se eles já tinham nascido com uma pré-disposição natural para provocarem calamidades daquela ordem, era um mistério que eu não fazia questão de descortinar. Apesar de existir um universo de possibilidades, dei-me ao luxo de assumir que a autoria do pequeno holocausto nuclear que se tinha abatido sobre a cozinha dos meus pais estava associada a um breve acesso de estupidez espontânea, catalisado por doses monstruosas de cerveja barata. Para ser sincero, o que eu realmente seria capaz de pagar bom dinheiro para descobrir era de uma natureza inteiramente diferente.
- Alguém me consegue explicar porque é que há um imigrante moldavo a dormir no lavatório? - perguntei em voz alta, genuinamente intrigado pelos critérios que aquele desgraçado teria empregado para qualificar uma plataforma daquele calibre como o sítio ideal para se entregar ao sono.
- Deve ter adormecido enquanto tentava encontrar o caminho de volta para casa. - gracejou o único membro do sexo feminino que tinha ousado acompanhar-me até aquele trágico local.
- Sabes uma coisa Beatriz? Em outra situação qualquer, até me tinhas feito esboçar um sorriso. Mas tendo em conta que alguém abriu as Portas do Submundo nesta cozinha e que me cabe a mim destruir todas as provas de que isso aconteceu, acho que devias guardar esse tipo de comentários para ti antes que eu perca as estribeiras de vez.
- Mas é uma hipótese perfeitamente plausível! Eu já tentei fugir deste país por vias mais estranhas.
E por alguma razão, isso não me surpreendia.
- Faz me um favor e vai à despensa procurar uma esfregona. Vou precisar que me ajudes a limpar este dilúvio radioactivo.
- Porquê eu?! - retorquiu a mordaz jovem de dezanove anos, visivelmente indignada pela ideia de permanecer naquele Nono Círculo do Inferno por mais um único segundo.
- Porque tu e eu somos as únicas pessoas lúcidas o suficiente para o fazer como deve ser. - pelo menos de que eu tivesse conhecimento, vistos que os restantes ou estavam no limiar de um coma alcoólico, ou enclausurados nas instalações sanitárias, possivelmente a expelir as matérias que tinham consumido ao jantar. - E porque a cozinha é o habitat natural da tua espécie. E quando me refiro à tua espécie não estou a falar especificamente de miúdas imprestáveis, mas sim de mulheres no geral.
Após um corrosivo riso forçado seguido de vários gestos obscenos, ela armou-se com uma esfregona e atou um lenço à volta do rosto de forma a cobrir o nariz, não fosse o cheiro daquele chavascal induzir-lhe uma hemorragia cerebral. Uma manobra inteligente que eu tomei a liberdade de imitar.
- Ouve o que te digo Santiago, porque eu não vou durar para sempre: quando arranjares uma namorada a sério, certifica-te de que ela não fale português porque essas gracinhas vão te custar muito mais do que um par de estalos um dia destes.
- Tem piada dizeres isso. - observei, sem dar rédeas ao meu escárnio. - Já socializamos há mais de três anos e no entanto não me lembro de ter recebido um único par de estalos da tua parte.
- Isso é porque eu não gosto de fazer rapazes chorar. Não é o meu estilo.
Optei por ficar calado durante os momentos que se seguiram.
É difícil estimar ao certo quanto tempo gastamos na restauração daquele compartimento de maneira a que ele voltasse a ficar aceitável segundo os padrões higiénicos de gente civilizada, mas tenho a certeza de que foi demasiado. O nosso maior problema agora, sem contar com a situação do moldavo, era o cheiro insuportável que se recusava categoricamente a sair por mais químicos que despejássemos naquele antro.
- Devíamos ter escolhido o caminho mais fácil e pegado fogo a isto tudo. Caso alguém começasse a fazer perguntas, sempre podíamos culpar aquele infeliz que dorme ali como se fosse o sítio mais normal do Mundo. Deus sabe que ninguém gosta de imigrantes neste país.
- Da última vez que vi, o seguro não cobre fogo posto e xenofobia.
"Caso contrário, nem pensava duas vezes" confessei no murmúrio mais inaudível que as minhas cordas vocais permitiram.
- Acho que vais querer repensar essa opção, Santiago.
O sotaque distinto do co-autor daquele crime contra a humanidade era inconfundível. E pelo grau de consistência da sua dicção, auferi que a estadia prolongada na casa-de-banho lhe tinha feito maravilhas.
- Quem é vivo sempre aparece! - declarou a Beatriz, genuinamente surpreendida pelo facto de ele ter regressado com vida. - Mas se queres que te deixemos prolongar a tua mortalidade é melhor que tenhas uma explicação minimamente aceitável para o que se passou aqui, Rui.
- E que tenhas deixado a casa-de-banho em melhores condições. - acrescentei, sem lançar um único olhar aquele animal, receando que algo de muito desagradável fosse acontecer à sua integridade física caso o fizesse naquele momento.
- Fica descansado Santiago que eu fui meigo. Ela há-de sobreviver não te preocupes.
- Tu tens mesmo muito pouco amor à tua vida, meu. - rugi ao me virar na sua direcção de punhos fechados e com todas as intenções de lhe deslocar o maxilar.
Mas antes que os meus punhos o alcançassem, ele disse uma coisa que me fez desejar estar muito menos sóbrio.
- E já agora, o moldavo não está a dormir.
Ele está morto.
Não percam o próximo episódio porque nós também não!

































