
As expectativas eram altas. A antecipação ameaçava tornar-se palpável. A estreia da última criação de Tim Burton era o grande acontecimento da semana e não havia tempo para discussões. Até mesmo comprar um balde de pipocas acompanhado de 33 cl. de Coca-Cola estava fora de questão.
E após deleitar os meus olhos com aquilo que só pode ser descrito como um exuberante banquete de efeitos especiais capaz de nos fazer questionar a nossa percepção do tecido da realidade, posso assegurar-vos que não saí da sala de projecções nº1 do Allegro de Alfragide arrependido por ter acabado de desembolsar uns relutantes 2,50€ extra pelo bilhete que me deu acesso ao fatídico antro; um gasto de dinheiro justificado apenas pela inclusão de um par de óculos ridículos que, para além de desafiarem todas as leis da estética e do bom gosto, permitem-nos alegadamente visionar o grande ecrã a três dimensões. Felizmente o filme não dependia desse "adereço" para agradar o seu público, vistos que a única coisa que ele acrescentou foi uma sensação mais acentuada de profundidade às imagens perfeitamente dispensável.
De facto, Alice no País das Maravilhas é uma longa-metragem de proporções bíblicas que atinge os seus ambiciosos objectivos sem estar dependente do auxílio dessas modernices desnecessárias. No entanto, e para grande desânimo meu, é um filme que não almeja ir para além do que já se esperava de uma película da autoria de Tim Burton, o que por si só, é quase imperdoável quando temos em conta todo o potencial do seu elenco (liderado por excelentes desempenhos da parte de Johnny Depp, Helena Bonham Carter e Mia Wasikowska) e os recursos colossais que estiveram à disposição do seu realizador.
Mas para aqueles que ainda não tiveram a oportunidade de levantar o cu do sofá para o ir ver, não pensem por um único instante que se trata de uma adaptação literal das obras de Lewis Carrol. Preparem-se antes para uma adaptação inconfundivelmente "burtoniana" dos romances do célebre escritor britânico.
A verdade é que Burton, apesar de não ter tido quaisquer crises de consciência em se servir descaradamente das inesquecíveis personagens oriundas do imaginário de Carrol, bem como de uma mão cheia de elementos chave da sua narrativa, compôs uma produção cinematográfica protagonizada por um enredo substancialmente diferente (e bastante mais sombrio) da história original que, embora francamente insípido em comparação ao que o cineasta californiano nos tem vindo a habituar, só poderia ter ganho vida através do engenho de um realizador do seu calibre. Todavia, e tendo vislumbrado o resultado final, confesso que fiquei com a ligeira impressão de que um certo alguém estava a dar voltas na sua campa desenfreadamente.
A melhor maneira de sumariar a essência do filme é através do recurso a uma comparação: A Alice no País das Maravilhas de Tim Burton é exactamente como um bitoque bem servido. Mata a nossa fome no momento em que o devoramos sem dó nem piedade, e no entanto não nos deixa completamente satisfeitos. Mas quem é que é capaz de recusar um bom bitoque?
Deixo-vos agora com uma das minhas cenas favoritas do filme para aguçar o vosso apetite.
Apesar de não dizer um único enigma durante o filme inteiro, o Gato de Cheshire a la Burton para além de ser a adaptação mais original do felino fictício até hoje, é também sem sombra de dúvida o gato gerado a computador mais charmoso que alguma vez vi.

2 comentários:
Concordo, concordo e concordo. Concordo com a Sofia tirando o 'não satisfatório', concordo contigo e concordo que apesar de tudo gostei do filme, que montar uma história baseada na Alice em conhecida e pequena, não é assim tão fácil. Ele montou bem o esquema.
http://sensationpersists.blogspot.com/
Passa lá no meu se te apetecer. Meti o teu link, que eu sigo muito. Sempre admirei a tua imaginação fértil. Que para além de fértil escreves bem que safarta man!
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